28/05/2012

Das memórias...

... dos que partem, li algures que a primeira coisa que esquecemos é a voz. E a verdade é que, por muito que me custe admitir, já não me recordo da voz da minha mãe, volvidos 20 anos da sua partida. Durante um tempo mantive uma gravação de uma cassete onde estava registada a voz dela, numa altura em que eu gravava as músicas directamente da tv para o gravador e ela irrompeu pela sala nesse preciso momento, a chamar pelo meu nome. Enquanto o rádio-gravador permitiu, ouvi esse pedaço da cassete vezes sem conta... Mas chegou o dia em que o rádio avariou e não tive mais como ouvir a voz dela. De qualquer modo, a fita já estava toda torcida, de tanto andar para trás e para a frente, naquele pedaço...

Tudo isto para dizer que, há dois dias, cruzei-me com uma vizinha da minha avó, com a idade aproximada da minha mãe, que me cumprimentou e à qual respondi, obviamente... O olhar surpreso dela, na minha direcção deixou-me intrigada, mas o que ela disse a seguir fez-me sorrir: "tens a voz igual à da tua mãe!"

E vim a sorrir no restante caminho até casa. Lá chegada, olhei no espelho, para uns olhos também herdados dela, e disse baixinho: "se te quiser ouvir, basta só falar contigo..."

E tanto que falo contigo.

5 comentários:

Uma Rapariga Simples disse...

Eu tenho notado uma dificuldade cada vez maior em manter a consistência na ordem dos acontecimentos.
Não sei se estou a esquecer. Queria tanto que não acontecesse.

Anita Garcia disse...

Mas é inevitável que aconteça... A consistência esvai-se com o passar dos dias, infelizmente.

Uma Rapariga Simples disse...

Eu sei, todos os dias perco mais qualquer coisa. :(

AnaLu disse...

comovente este texto.

Anita Garcia disse...

Obrigada AnaLu ☺
E obrigada por passares aqui no meu cantinho, volta sempre*